Dizem que a idade trás serenidade.
Não é verdade!
E quem tiver alguma coisa a dizer sobre isto, avance e fique calado. Não é assim que se ouvia dizer no princípio do séc. XX?
Estou como o Paulo Celan, judeu, que se encontrava inconformado com o destino de uma humanidade devastada.
Claro que a incerteza é irmã gêmea da condição humana, mas é mais que incerteza, é revolta, aliás, revoltas porque são várias.
Primeiro e se calhar a mais complicada de todas, a que tenho contra mim (a doença).
O estar sempre doente, faz com que se perca pouco a pouco a alegria por um lado e, por outro, a sensação de não estar em sítio nenhum, tornando-me cada vez mais especialista em silêncios; a liberdade sem objectivos; a insatisfação de todo o convívio.
Claro que possuo o bem maior que uma pessoa pode dispôr, senão mesmo o único - TEMPO.
Mas o que acontece é que toda a gente faz tudo para não ter tempo e gosta de não ter tempo. Parece que só assim se acham gente.
Portanto, o tempo e aquilo que ele representa tem que se lhe diga.
Já Ruy Belo na sua Antologia Poética referia "Que ocupação é agora a tua,/Que tens todo o tempo livre à tua frente".
Mas a vida é assim, ou talvez o género humano, como dizia T.S. Eliot: "Vai, vai, vai disse a ave: o género humano não pode suportar muita realidade".
Há uma espécie de encerramento pelo lado de fora.
Eu tenho tempo. Nós, os aposentados/reformados, temos tempo - o bem mais preciososo do mundo, mas nós somos assim, não podemos estar onde estamos e às vezes estamos a trabalhar para que o futuro se transforme em passado antes de ter sido presente.
Em segundo lugar, a revolta que vem do exterior de mim, como seja:
-a questão da crise das vanguardas.
- o confronto com uma realidade quase sempre sub-traída.
- a observação de que regressamos, de novo, a dois mundos inlocalizáveis.
-a vulgaridade que nos invade.
-a desesperança de fazer-se falar e ouvir o que não tem esperança.
-a menoridade do progresso.
- a vida dos jovens adiada.
- a docilidade imoral dos doutrinadores.
- a vida sob o fio da espada.
- viver o tempo em que ninguém se interessa por ninguém.
A "revolução" passou e é difícil encarar o seu cadáver putrefacto. O cheiro a peixe podre, que como se sabe é da cabeça que primeiro o cheiro é emanado.
-os canais da televisão, jornais e rádios, tudo nas mãos dos mesmos, que são máquinas de criar interpretações.
- as muitas histórias ditas verdadeiras que como se sabe, é nestas que cada um mente como lhe convém.
- o vazio de ideias dos políticos, jornalistas e assim sucessivamente.
- os Srs. fala de tudo tão à superfície da pele.
- a saudade do fomos que nunca fomos e do éramos para ser, sem nunca ter sido.
- a constatação de que há muitos cínicos que juram uma coisa e acreditam noutra e tantos que só vivem a ver o que podem roubar para terem dinheiro sem trabalhar muito.
- a visão das máfias emergentes.
- os centros das cidades órfãs de vida.
-a saúde como negócio mercantil.
-os adeptos fanáticos das páginas desportivas e os interesses que estes acarretam.
-os subsídio-dependentes (CAPS, CIPS e quejandos).
- a impontualidade.
- a delinquência política e empresarial.
-as demasiadas pessoas sem nada que fazer ou perder; demasiadas pessoas sem sonhos, sem esperanças. Demasiadas pressões acumuladas.
Há caminhos com muitas lombas, assim acontece com esta vida e com este país.
Há uma terrível desilusão.
Os problemas persistem.
Há coisas insolúveis e intrigantes a mais.
Começam a decapitar-se todas as esperanças e é isso o âmago de toda a revolta.

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